domingo, 8 de janeiro de 2012

Será um feliz ano novo?


Tarso Genro (governador do Rio Grande do Sul) 
artigo na FSP de 08/01/2012

O ano de 2012 será decisivopara o Brasil e para a América Latina. Não se trata de uma crônica de ano novo. É uma afirmação criteriosa, fundamentada em dois cenários, um interno e outro externo.

No externo, há o cansaço tanto da social-democracia como da ideologia thatcherista-neoliberal.

A social-democracia cansou a paciência de todos, em regra, porque a sua adaptação aos novos tempos -de crise do financiamento do "estado de bem-estar"- fez com que ela cultuasse a globalização financeira e passasse a se escravizar nas suas receitas.

De outra parte, o cansaço da ideologia do neoliberalismo adquiriu seu auge na evidência de manipulações fraudulentas, pelos bancos e governos, da situação real dos estoques da dívida pública. Mais uma vez houve frustração e tédio com os seus discursos sem cor.

No cenário interno, tanto brasileiro como latino-americano, vários são os governos, com orientações distintas, que conseguiram conquistar apoio parlamentar e social para não aplicar as regras neoliberais, com objetivo de sair das suas crises e melhorar a vida do povo.

A "melhora da vida do povo", no âmbito de uma crise mundial com intervenções militares brutais e com castração de direitos sociais nos países de capitalismo avançado, é um dado relevante para avaliar a importância do próximo ano no futuro da democracia na América Latina.

Como é sabido pela ciência política e comprovado empiricamente, nem sempre a democracia gera progresso socioeconômico para a maioria, assim como nem sempre as ditaduras pioram as condições de vida dos cidadãos.

Avançar socialmente dentro da democracia não é pouco. Assim como não é pouco fazer governos serem compreendidos pelos seus povos pelo que estão fazendo e melhorar a renda e a autoestima dos mais pobres dentro de um amplo processo democrático. É muito.

E mais: a inclusão massiva de grupos populacionais no consumo, na produção e na educação gera novos sujeitos sociais e novas demandas. Alguns exemplos: melhor comida, melhor habitação, um melhor carro do ano, mais lazer qualificado, mais educação e melhor transporte coletivo, além de mais segurança para fruir a vida.

A aceleração no combate às desigualdades é que vai resolver se teremos um bom ano novo para as democracias latino-americanas.

A aceleração no combate aos privilégios, dentro e fora do Estado e das empresas públicas e privadas, reduzindo as diferenças de renda e de salários - tanto na esfera pública como na esfera privada -, é que vai criar coesão entre as classes sociais emergentes, o Estado de Direito e a democracia.

Esses novos setores sociais não são massa de manobra de ninguém. Eles não se originam de paternalismos populistas nem de conquistas de burocracias sindicais. Não são "aparelháveis", pois são dispersos na estrutura produtiva, de serviços e na estrutura de classes.

Eles não são "classe média" frustrada ou raivosa. São os "de baixo", que apareceram nas urnas e reelegeram Lula e elegeram Dilma. Aparecem nas estatísticas do ProUni, dos novos empregos e das novas atividades na produção e nos serviços.

Esses é que têm potência para constituir - em irmandade política com os demais setores do mundo do trabalho - um consenso superior, forjado a partir das suas mobilizações para a oxigenação da vida pública democrática.

Isso só poderá ser feito diretamente pela política e pelos partidos, na minha opinião os de esquerda, e cada vez menos através de demandas corporativas e setoriais.

A agenda do combate às desigualdades sociais deverá ser a pauta de uma esquerda revitalizada, que já cumpriu tarefas importantes no Brasil e na América Latina, após o ciclo das ditaduras cujos fantasmas ainda nos visitam.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Retrocesso Ambiental

EM CLIMA DE TRUCULÊNCIA
COMISSÃO APROVA DESMONTE DO CÓDIGO FLORESTAL

Numa tumultuada sessão, as comissões de agricultura e de ciência e tecnologia aprovaram o texto base do senador Luiz Henrique (PMDB/SC) para o novo Código Florestal.
Na avaliação dos integrantes do Comitê Brasil em Defesa das Florestas o projeto aprovado, mesmo com as eventuais modificações que poderão ocorrer, não resolve os principais problemas do texto aprovado na Câmara dos Deputados.
Continua a abertura para anistiar todos os desmatamentos ilegais feitos até três anos atrás, a falta de regras diferenciadas para os pequenos agricultores, a ausência de regras claras para evitar novos desmatamentos em beiras de rio e nascentes, pastagens em encostas, dentre vários outros que haviam sido elencados pelo comitê. E, dependendo das emendas que serão aprovadas, pode piorar ainda mais.
A truculência da polícia do senado, que violentamente acabou com a manifestação pacífica de estudantes contrários à aprovação do projeto, foi outra marca do triste episódio desta tarde. Os membros do comitê manifestam seu repúdio à violência praticada contra os manifestantes e exigem apuração e punição dos responsáveis.
O Comitê Brasil em Defesa das Florestas e do Desenvolvimento Sustentável conclama a sociedade brasileira a, mantido o texto atual, iniciar uma ampla campanha pelo veto da Presidenta da República, Dilma Rousseff para evitar um dos maiores retrocessos na legislação ambiental brasileira em toda sua história.

Brasília – DF, 08 de novembro de 2011

Comitê Brasil
em Defesa das Florestas
e do Desenvolvimento Sustentável


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sexta-feira, 20 de maio de 2011

A que ponto chegou a Igreja!

A que ponto chegou a igreja de Cristo… Opa! Ratifico, se fosse a igreja de Cristo, não agiria assim... Assim como??? Descartando ovelhas, se alegrando com a saída, a tristeza delas pelo simples sentimento egoísta e egocêntrico do “alívio”... Alívio porque ela não irá mais questionar, alívio porque ela não irá mais ser vista, alívio por ela não mais existir para atrapalhar os planos de alguém!!!
Será que a Biblia classifica a ovelha mediante seus predicados e defeitos e dita regras para se estabelecer a “paz” na igreja? Será que se deve descartar, jogar fora aquelas ovelhas que não forem aos moldes do dono? Quem é o dono da igreja? Cristo? Cristo descartaria alguma ovelha por seus traços de personalidade ou defeitos? Ou será que Cristo usaria tais traços em benefício do corpo e a ensinaria a ser melhor, a ser diferente, sendo, a ensinando através do exemplo, e não dizendo para ela ser, mandando que ela seja, somente. Bom, tenho certeza que Cristo faria o certo, mas... se não está acontecendo isso no corpo, o corpo é de Cristo?
Pensando na igreja primitiva, a igreja moderna mais se parece com uma indústria prática e que visa lucros... você tem que se enquadrar, se não está fora! Se enquadrar como? Espiritualmente? Nãããããããããããooooooo!!!!!! A parte espiritual não é o departamento da igreja moderna, você tem que se enquadrar comportamentalmente! Exemplo: Não importa se você tem aqueles pecados ocultos, não importa se você não está feliz, se você não tem comunhão com seus irmãos, não importa sua vida sexual errada, se você trai seu cônjuge, se é desleal, se rouba, se você é mal com seus filhos ou com seus pais, ou com alguém... não importa nada disso... contanto que você não seja desleal e nem contrarie o pastor... o resto “você vai dar conta pra Deus”, afinal, o que o pastor tem a ver com isso tudo? Tadinho, ele já tem a família dele para cuidar - que aliás, é sempre um exemplo de família feliz e perfeita – imagina se ele tivesse que cuidar de todo mundo... ele não merece tanto trabalho, afinal, ele é o pastor, e o pastor não tem que cuidar das ovelhas... só tem que olhar para elas e tirar suas conclusões mediante o que vê e o que ouve sobre elas, só isso! Na igreja moderna, o que importa é você tratar bem o pastor, afinal, ele é o chefe, o líder, o “dono da igreja” e ele tem muito trabalho “julgando” cada ovelha e administrando brilhantemente todo o dim dim, fazendo tudo bem direitinho para que as ovelhas tenham todo o conforto e que o aprisco seja o mais famoso da redondeza... afinal, o nosso aprisco tem que ser o mais bonito, as ovelhas as mais fashions... imagina, a aparência é tudo, estamos no século 21!!! E a comunidade? E se houver alguma favela, gente necessitada ao lado do aprisco? Calma, isso a prefeitura ou outro aprisco que não tem mais o que fazer, cuida... deixa pra lá! O importante é que estejamos lindos e maravilhosos... E aí você imagina, que igreja linda! Cada um dando conta de si mesmo a Deus, dando seu dim dim todo culto, melhorando a autoestima do pastor com bastante elogios e concordando com tudinho que ele fala e descartando , mandando pra bem longe, todas aquelas ovelhas que atrapalham de alguma forma... viu que céu? Que lugar perfeito?
Ah, e quando alguma coisa sai errado? E quando esse céu se desmorona? E quando aquela “paz” maravilhosa é destruída por algum motivo? Ah, na igreja moderna é fácil saber de quem é a culpa: de alguma ovelha, é claro! Mas a ovelha não é meio cega, tem o olfato comprometida e blá blá blá??? Sim, mas em quem mais colocar a culpa? Ainda mais se for alguma ovelha pensante, porque ovelha não pode pensar, isso é função do pastor. E o que fazer com a ovelha pensante e destruidora da maravilhosa “paz” do pastor, ou seja, do aprisco? Isso é fácil, é o que mais se vê no aprisco... é só chamar o Lobo. Sim, aquele Lobo, o mesmo em que o pastor cuida para que não pegue e devore suas obedientes ovelhinhas. Nesse caso, ele chama o Lobo e diz: “Lobo, essa ovelha está “pensando”, causando desordem no aprisco e fazendo com que outras ovelhas “pensem”, pode comê-la... e se possível, coma tudinho, não deixe nem uma patinha se quer, para que eu nunca mais me lembre dela”. Então, o Lobo faz o serviço e o pastor segue aliviado e feliz juntamente com as outras ovelhinhas obedientes, mudinhas e ceguinhas que fazem todos os serviços para que tudo siga na mais perfeita “ordem e progresso” (qualquer semelhança é mera coincidência).
E a ovelhinha pensante?? Foi comida pelo Lobo... “graças a deus”’...

De Sanley Pires
15/05/11


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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Alô Realengo, aquele abraço solidário


Altino Machado às 8:50 am; domingo, 10 de abril de 2011

José Ribamar Freire

Não tinha amigos, não batia papo nem contava piada, nunca namorou, jamais lhe deram um cheiro no cangote ou alisaram sua mão, nunca transou, não torcia por time algum, nunca foi ao Maracanã, não xingou juiz de ladrão, de sua garganta jamais saiu um grito apaixonado de gol, não desfilou em qualquer bloco de carnaval. Passava o tempo na internet, em jogos eletrônicos, mas nunca recebeu um aviso no FaceBook solicitando: “me adicione como amigo”.
Esse filme a gente já viu. Ele é americano. Surge, agora, uma produção brasileira, um compacto que mistura roteiros das várias versões importadas dos Estados Unidos. Aqui o cenário foi uma escola em Realengo, no subúrbio carioca. O personagem principal invadiu a escola, executou friamente 12 alunos e feriu mais dez. Foram importados dos Estados Unidos seu nome - Wellington - e os dois apelidos - Sherman e depois Suingue, botados pelos colegas.
O primeiro foi inspirado na figura nerd de Chuck Sherman, “the Sherminator”, do filme American Pie. O segundo, no seu jeito desajeitado de caminhar, causado por uma perna ligeiramente menor que a outra, que produz um balanço, um “suingue”, no dizer debochado dos colegas. Na versão americana de Ohio, o aluno H. Coon, que entrou na escola e atirou em quatro colegas antes de se suicidar, também mancava e ficou conhecido pelo apelido de Deixa-que-eu-chuto.
A história de Wellington começa a ser contada, aos fragmentos, por colegas, vizinhos e irmãos adotivos entrevistados pela mídia, com registros esparsos sobre seu nascimento e sua passagem pelo mundo da família, da escola e do trabalho. Aliás, ele não nasceu, foi excluído do ventre de sua mãe - uma moradora de rua com problemas mentais.
Precisa de carinho
Na escola, usava calças com cós acima da cintura e meias até os joelhos. A menina mais bonita da turma se jogava em cima dele, fingindo assediá-lo, só pra sacanear. Ganhou fama de homossexual. Não reagia às agressões. À semelhança do estudante de origem sul coreana, nos Estados Unidos, Cho Seung-hui, que matou 32 pessoas na Universidade de Virginia e deixou uma carta dizendo ter sido discriminado como um bicho: “Eu morro como Jesus Cristo, para inspirar gerações de pessoas fracas e indefesas”.
Seguindo o modelo americano, Wellington também escreveu uma carta, rogando para que na sua vinda “Jesus me desperte do sono da morte”. Nela, deixou um testamento, legando sua casa para alguma instituição encarregada de cuidar dos animais abandonados, “pois os animais são seres muito desprezados e precisam muito mais de proteção e carinho do que os seres humanos que possuem a vantagem de poder se comunicar”.
Wellington não tinha o poder de se comunicar. “Mal ouvíamos a voz dele, vivia no mundo dele”, contou uma vizinha. “Era muito calado, muito fechado e a galera pegava muito no pé dele, mas não a ponto de ele fazer isso”, disse seu ex-colega Bruno Linhares, 23 anos, se referindo ao massacre. Precisava de proteção e carinho?
Outros colegas admitiram que o rapaz foi vítima de “bullying” na Escola Municipal Tasso da Silveira, onde estudou de 1999 a 2002, quando sofreu constantes intimidações. “Além de tudo, ele ainda tirava notas baixas”, completou Bruno. No 8º ano, ficou em recuperação em quase todas as matérias.
“A gente chorou muito pensando que Wellington matou aquelas 12 crianças em represália pelo que aconteceu com ele quando nós estudávamos juntos”, contou Thiago da Cruz, outro ex-colega, que usou o adjetivo assustador para se referir ao bullying e à chacota a que Wellington foi submetido. Em entrevista à Folha, reconheceu que não suspeitava do dano que cometeram e acrescentou chorando: “Não era para ninguém ter pago por uma coisa que nós fizemos”.
“Ele era tímido e calado”, confirmou ao Globo o gerente da fábrica de alimentos Rica, sediada em Jacarepaguá, adiantando que Wellington permaneceu silencioso o tempo todo numa dinâmica de grupo realizada na firma, onde trabalhou durante dois anos como auxiliar de almoxarifado. A indústria, que abate 170 mil aves por dia e aloja cerca de 46 milhões de pintos, considerou “baixa” a produtividade dele.
Por isso, Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, foi excluído do trabalho, demitido em agosto de 2010. Ficou desempregado. Depois da morte da mãe adotiva, passou a morar sozinho, mergulhado na mais extrema solidão. Não foi apurado ainda com que recursos ele sobreviveu nos últimos meses.
Nessa quinta feira, 7 de abril, vestido de preto e com duas armas, como o menino de Ohio, Wellington voltou ao local do crime -a escola onde estudou- para acabar com aquilo que o molestara. Incorporou o apelido de “The Sherminator”, encurralou e executou 12 crianças, feriu outras 13, quase todas mulheres, num banho de sangue nunca visto numa escola brasileira. Depois, ferido, se suicidou com um tiro na boca.
Escola de merda
Errou o alvo. Atirou no que viu e matou o que não viu. Ceifou os sonhos de Larissa,14 anos, que queria ser modelo; de Bianca, a gêmea de 13 anos, que gostava de navegar na internet; de Mariana, 12 anos, o xodó da família, que adorava tirar fotografias; de Géssica, 15 anos, uma menina alegre que havia feito planos de estudar na Marinha; de Igor que gostava de futebol, torcia pelo Flamengo e jogava na Escolinha do Vasco. E de tantas outras adolescentes sonhadores.
“Ela morreu naquela escola de merda”, gritava dentro do hospital dona Suely, mãe de Géssica. Familiares e amigos ficaram imersos no desespero, na revolta, na dor e na perplexidade. Como foi possível isso acontecer? Podíamos ter evitado? Como?
“Poderia ter sido um de nós, um de nossos filhos”, escreveu uma leitora do Globo, sem atentar que foram 12 de nós, 12 de nossos filhos. Por isso é que o Brasil inteiro se sentiu ferido com os tiros disparados por Wellington, que atingiu a todos nós, embora com intensidade diferente.
O presidente do Senado, José Sarney, sempre “brilhante”, sugeriu que “o governo deve, a partir desse episódio, reforçar a segurança dentro das escolas brasileiras e até mesmo incluir no currículo um item chamado segurança”. Outras sugestões foram feitas: instalação de câmeras, detectores de metal, catracas, guaritas, porteiros armados. Por que não canhões? Ou fossos ao redor como nos castelos feudais? Isolar a escola da comunidade onde está encravada é alguma garantia de segurança?
A prefeitura do Rio chegou a iniciar, em novembro do ano passado, a contratação de porteiros para as escolas, mas houve denúncias de que as vagas estavam sendo loteadas através de indicação política, naquele modelo que o Sarney gosta, usa e abusa. Suspenderam as contratações e abriram uma CPI.
O governador Sérgio Cabral, ainda desorientado, diagnosticou o assassino como “psicopata”, como um “animal”, reforçando as palavras de Sarney. para quem Wellington é “um fanático”, “um fronteiriço, possesso -esta é a palavra - entre a loucura e a maldade”. O diagnóstico dos dois configura “exercício ilegal da profissão”.
Quem produziu Wellington? Por que um espetáculo tão macabro, no qual todos somos perdedores? Se não procurarmos responder essa pergunta, outros Wellingtons surgirão, tirando o gostinho dos Bolsonaros por seu linchamento, já que se suicidou. O diabo é que estamos todos perplexos, confusos. Quem diz que sabe o porquê do acontecido, sinalizando um único fator como a causa de tudo, comete um erro. Uma certeza nós temos: nem o presidente do Senado nem o governador sabem o que dizem.
Desconfio que além das pessoas tocadas de perto pela tragédia, precisamos todos, os 180 milhões de brasileiros, de assistência psicológica. No meio de tanta dor, não temos ainda a grandeza sequer de dizer: Descansa em paz, Wellington. Enquanto isso, só nos resta fazer como os familiares das crianças assassinadas e os moradores de Realengo que nesse sábado deram um enorme abraço na Escola Tasso da Silveira.
Alô, Alô, Realengo, aquele abraço solidário e aquele cheiro no cangote que Wellington nunca recebeu, levando consigo três fiapos de humanidade: o beijo na testa da professora de literatura, a preocupação com os animais desamparados e a retirada de um aluno de sua mira: “Fica frio, gordinho, que eu não vou te matar”.
O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO).

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

"Como se roba"



Existe uma gíria antiga que define uma ação rápida: “Como se roba”. Ontem assistindo a velocidade e a união, do grupo de partidos em Brasília, para votar seus próprios salários, esta expressão me veio à cabeça. “Como se roba” um bando formado por (PTB, PSDB,PDT, PC doB, PR, PSC, DEM, PHS, PMDB, PMN, PV, PPS, PT do B e PT) agiu rapidamente para não dar tempo de reação e garantiu um gordo aumento de salários.


Primeiro na Câmara, o deputado Chico Alencar do PSOL e a deputada Luiza Erundina do PSB tentaram evitar o descalabro, mas foram vencidos e a proposta de regime de urgência passou. ”Como se roba” a proposta chegou ao senado. Lá foi a vez da Senadora Marina Silva do PV, Alvaro Dias (PSDB-PR) e do senador José Neri do PSOL, brigarem contra a proposta do “super-aumento”, mas a união e agilidade do bando (PTB, PSDB,PDT, PC doB, PR, PSC, DEM, PHS, PMDB, PMN, PV, PPS, PT do B e PT) foi mais eficaz. A proposta foi aprovada no inicio da tarde pelos deputados e não aguardou nem uma hora para ser votada pelos senadores. Exemplo de união, agilidade e eficiência quando se trata dos interesses deles.

Em uma votação relâmpago, o Senado aprovou nesta quarta-feira 15 de dezembro de 2010 o projeto que concede aumento de 61,83% no salário dos próprios senadores e dos deputados federais, de 133,96% no valor do vencimento do presidente da República e de 148,63% no salário do vice e dos ministros de Estado.
O projeto iguala os salários de deputados e senadores, do presidente da República, do vice e dos ministros. Todos eles passarão a receber R$ 26.723,13 por mês, mesmo valor do salário do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e que serve como teto do funcionalismo público. O novo salário entrará em vigor em 1º de fevereiro de 2011.

Falam que o Impacto é de ao menos R$ 1,8 bilhão ao ano nas contas públicas, e do efeito cascata no Legislativo que se dá porque o salário dos 1.059 deputados estaduais e 52 mil vereadores está vinculado, pela Constituição, ao dos congressistas.

Eu só consigo ter vergonha e muita raiva deste cinismo num Brasil onde o salário médio de um professor gira em torno de R$ 1.500mil,dados do MEC, um diretor de empresa privada R$15.000 mil, médico R$ 10 mil (dados da revsita Exame).

A proposta de aumento para o salário mínimo é de cerca de 5% , No Brasil, 27 milhões de pessoas sobrevivem com o salário mínimo segundo dados do (DIEESE). Pior , um em cada cinco trabalhadores assalariados nas seis regiões metropolitanas cobertas pela Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE é considerado de baixa renda. Isso significa que eles ganham menos de dois terços de um salário mínimo. A incidência maior é de mulheres, negros, jovens e trabalhadores com baixo nível de escolaridade. Muito, muito pior
No Brasil tem cerca de 3 milhões de crianças trabalhando, segundo OIT. Como engraxates, distribuindo panfletos, vendedores ambulantes, coletando lixo.... para aumentar os rendimentos familiares.

Ah, mas o Senado vai analisar o Plano Nacional de Erradicação e Prevenção do Trabalho Infantil e Proteção ao Adolescente Trabalhador. Ah bom!

*Em tempo eles (parlamentares) também têm direito a auxílio moradia R$ 3.000 mil , mensal, cota postal e telefônica, verba de transporte aéreo, etç.



Ruth Alexandre de Paulo Mantoan
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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

FUGINDO DO INFERNO

Por Antonio Carlos Costa

Acabei de receber a notícia de que 11 presos, que encontravam-se na Polinter de Neves, no município de São Gonçalo, fugiram na madrugada dessa segunda-feira. Meu ponto de vista: na verdade escaparam poucos. Não lhes restava alternativa, exceto, fugir. Deixe-me explicar o que não estou querendo dizer.

Não estou dizendo que ninguém deve ser preso. A natureza humana não comporta mundo sem prisão. Muito menos estou afirmando que encontram-se naquele lugar rapazes que, devido à falta de oportunidade na vida, podem ser justificados de certos crimes que cometeram. Não deixo também de reconhecer a ameaça que representa para a sociedade o retorno de alguns deles para a rua.

O histórico de fuga de presos das carceragens da Polícia Civil é surpreendentemente baixo. As condições de trabalho dos policiais civis que atuam nesses lugares é péssima. As carceragens são frágeis. Esses homens têm que manter a ordem de dezenas de celas superlotadas, trabalhando em número desproporcional à quantidade de presos, exercendo sua atividade em ambientes insalubres. Em Neves, por exemplo, há ocasião de dois policiais apenas terem que cuidar de 800 presos.

Se você estivesse preso naquele lugar, certamente, aproveitaria a primeira oportunidade para fugir. A não ser que você visse, o sofrimento auto-imposto, como forma de se livrar do tormento de consciência. A decisão voluntária de não procurar escapar do purgatório estatal. Com a desvantagem de não haver venda de indulgência, uma vez que -por causa do perfil social de quem para naquele lugar-, não há quem interceda pela sua vida do lado de fora. A Polinter representa uma das mais graves violações dos direitos humanos no nosso país e menosprezo à Constituição Federal do Brasil. Uma pedrada no conceito de santidade da vida humana, uma cusparada na Constituição Federal. É algo tão absurdo, que a partir do contato com sua realidade, somos levados a crer que, o conceito de pacto social é uma grande mentira e trama diabólica administrada por quem detém o poder no Brasil.

Naquele lugar jazem homens que habitam em celas onde mal se pode respirar, tanto devido à quantidade de preso por metro quadrado, quanto à falta de ventilação. O calor chega a 57 graus Celsius no verão. Cárceres com 13 camas recebem 80 presos, tendo ao seu dispor um único banheiro. Proliferam nesses ambientes sarna, furunculose, doenças respiratórias, problemas gastrointestinais. Há casos, do preso chegar, ver e entrar em pânico. Bater a cabeça na parede e surtar, tamanho o desespero que aquela masmorra medieval causa nos que são jogados num lugar que um dia serviu de estábulo.

As perguntas que se impõem são as seguintes: faz sentido a Constituição Federal ser cumprida? O que acordamos como cidadãos, vale ou não vale? Podemos mostrar as imagens da Polinter de Neves no exterior e nos orgulharmos de sermos brasileiros? Pode-se esperar que os presos saiam daquele lugar para serem perfeitamente integrados à vida em sociedade? É bom para a segurança pública torturar o preso? O que faríamos se, por uma dessas desgraças da vida, um filho nosso parasse ali? Faz sentido usarmos a lei para lançarmos alguém num lugar que representa descumprimento crasso da lei?

Há um ano e meio faço trabalho voluntário em Neves. Aquele lugar marcou minha vida para sempre. Quando o conheci pela primeira vez, acordava no meio da madrugada sobressaltado com aqueles rostos pálidos e vozes angustiadas na minha mente. O vapor fétido que sai dos cárceres, o lixo, o suor, o choro, o arrependimento, a banalização da vida, o confinamento, o abandono. Ali perdi o respeito pelo Estado.

Todos sabem o que acontece em Neves. O movimento que presido levou para aquele lugar a BBC de Londres, a rede de televisão Al Jazeera, a TV Brasil. Fomos primeira página no jornal O Globo, que apresentou foto da mão de um dos nossos voluntários, portando dentro da cela, um termômetro, apontando a temperatura de 56.7 graus Celsius. Gravei vídeos, escrevi para jornal, dei entrevistas, e nada. Absolutamente nada. Não sei como a autoridade pública que tem acesso a informação, que conhece toda a história da saga da humanidade em busca de relações sociais mais justas -Magna Carta, Revolução Francesa, Declaração de Independência dos Estados Unidos, derrota do Nazismo, colapso da ditadura comunista stalinista, Declaração Universal dos Direitos Humanos-, permite a existência dessa vergonha para o Estado que sediará os Jogos Olímpicos de 2016.

Agora, um fato novo. Presos fogem. Estão na rua novamente. Sentimos medo. Deveríamos, antes, ficar com medo do que um dia trará vergonha a todos nós: a indiferença criminosa de uma sociedade e de um governo que ainda não entenderam o significado da palavra democracia.



Antônio Carlos Costa
Presidente do Rio de Paz


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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Respirar é possível

 BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS


Para governos "desalinhados" do continente e para as classes sociais que os levaram ao poder, as eleições no Brasil foram um sinal de esperança


As eleições no Brasil tiveram uma importância internacional inusitada. As razões diferem consoante a perspectiva geopolítica que se adote.

Vistas da Europa, as eleições tiveram significado especial para os partidos de esquerda.  A Europa vive uma grave crise, que ameaça liquidar o núcleo duro da sua identidade: o modelo social europeu e a social-democracia.  Apesar de estarmos diante de realidades sociológicas distintas, o Brasil ergueu nos últimos oito anos a bandeira da social-democracia e reduziu significativamente a pobreza. Fê-lo reivindicando a especificidade do seu modelo, mas fundando-o na mesma ideia básica de combinar aumentos de produtividade econômica com aumentos de proteção social.  Para os partidos que, na Europa, lutam pela reforma do modelo social, mas não por seu abandono, as eleições no Brasil vieram trazer um  pouco mais de ar para respirar.  

No continente americano, as eleições no Brasil tiveram uma relevância sem precedentes. Duas perspectivas opostas se confrontaram.  Para o governo dos EUA, o Brasil de Lula foi um parceiro relutante, desconcertante e, em última análise, não fiável. Combinou uma política econômica aceitável (ainda que criticável por não ter continuado o  processo das privatizações) com  uma política externa hostil.  Para os EUA, é hostil toda política externa que não se alinhe integralmente com as decisões de Washington.

Tudo começou logo no início do primeiro mandato de Lula, quando este decidiu fornecer meio milhão de barris de petróleo à Venezuela de Hugo Chávez, que nesse momento enfrentava uma greve do  setor petroleiro, depois de ter sobrevivido a um golpe em que os  EUA estiveram envolvidos.  Tal ato significou um tropeço enorme na política americana de isolar o governo Chávez.

Os anos seguintes vieram confirmar a pulsão autonomista do governo Lula.  O Brasil manifestou-se veementemente contra o bloqueio a Cuba; criou relações de confiança com governos eleitos, mas considerados hostis - Bolívia e Equador-, e defendeu-os de tentativas de golpes da direita, em 2008 e em 2010.  

O país também promoveu formas de integração regional, tanto no plano econômico como no político e militar, à revelia dos EUA, e, ousadia das ousadias, procurou relacionamento independente com o governo "terrorista" do Irã.  

Na década passada, a guerra no  Oriente Médio fez com que os EUA  "abandonassem" a América Latina. Estão hoje de volta, e as formas de intervenção são mais diversificadas do que antes.  Dão mais importância ao financiamento de organizações sociais, ambientais e religiosas com agendas que as afastem dos governos hostis a derrotar, como acaba de ser documentado nos casos da Bolívia e do Equador.  O objetivo é sempre o mesmo: promover governos totalmente alinhados. E as recompensas pelo alinhamento total são hoje maiores que antes. A obsessão de Serra com o narcotráfico na Bolívia (um ator secundaríssimo) era o sinal do desejo de alinhamento.  

A visita de Hillary Clinton e a confirmação, pouco antes das eleições, de um embaixador duro ("falcão"), Thomas Shannon, são sinais evidentes da estratégia americana: um Brasil alinhado com Washington provocaria, como efeito dominó, a queda dos outros governos não alinhados do subcontinente.  

O projeto se mantém, mas, por agora, ficou adiado.  A outra perspectiva sobre as eleições foi o reverso da anterior. Para os governos "desalinhados" do continente e para as classes e movimentos sociais que os levaram democraticamente ao poder, as eleições brasileiras foram um sinal de esperança: há espaço para política  regional com algum grau de autonomia e para um novo tipo de  nacionalismo, que aposta em mais redistribuição da riqueza coletiva.


BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, 69, sociólogo português, é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal). É autor, entre outros livros, de "Para uma Revolução Democrática da Justiça" (Cortez, 2007).